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.Desconstruindo o barril do petróleo
Dia 03 de julho, o barril de petróleo bateu novo recorde de preço
ao marcar 145 Dólares na cidade de Nova York.
Embora impressionante, este aumento não é de forma alguma inexplicável.
Neste artigo, procuro elucidar um pouco a questão a partir da decomposição
do preço do barril – que já saltou de 30 dólares
em 2003 para 144 dólares em 2008 – em cada um dos seus factores.
Classifiquei as razões por uma suposta ordem de importância,
observada da seguinte maneira:
1. Especulação financeira
2. Desvalorização do Dólar
3. Consumo elevado
4. Questões de geopolítica
5.Queda das reservas
6.Subsídio aos derivados
A primeira questão envolve os investidores, que vêm jogando
apostas extremamente altas no mercado. Assim como na bolsa de valores, onde
uma acção pode estar cotada por números muito superiores
ao seu valor patrimonial, no sector do petróleo a cotação
do barril também salta com o movimento especulativo.
Partindo da opinião consensual de especialistas, podemos projectar
que a especulação, por si só, corresponde a cerca de
20% do preço do barril (e a tendência é que este percentual
aumente). Sem ela, é provável que a cotação nem
mesmo passasse dos 110 dólares.
Levando em conta que o barril estava fixado em 30 dólares
no ano de 2003 – e considerando que o dólar se desvalorizou significativamente
(somente o Real já valorizou aproximadamente 45% de lá para
cá) – o preço de 110 dólares , sem especulação,
cai para algo em torno de 75 dólares.
A desvalorização do dólar, aliás - especialmente
frente ao Euro - é outro factor que pesa bastante sobre o preço
do barril.
A crise no sector imobiliário americano, somada ao desgaste do governo
e da economia americana, consolidou a força da moeda europeia e levou
investidores a moverem-se em direcção a moedas de países
emergentes, enfraquecendo ainda mais o dólar.
Em relação à explosão do consumo, impulsionada
por países em desenvolvimento como China e Índia, temos um
aumento concreto de cerca de 15% (aproximadamente) desde o ano 2000. Refrear
esse crescimento é uma medida improvável, embora existam formas
de amenizá-lo. A mais evidente, conquanto indesejável, seria
o aumento radical no preço dos derivados.
Creio que apenas o acaso de uma grande recessão económica
pudesse surtir o mesmo efeito de maneira contundente.
A questão dos conflitos políticos é um aspecto sempre
presente e marcante quando se trata de valores relacionados ao petróleo.
O mero temor por uma guerra envolvendo países como, por exemplo, o
Irão, já é por si só suficiente para criar uma
certa instabilidade.
O próprio governo americano vem tentando amenizar a questão
Irão/ Israel, temendo certamente uma escalada ainda maior das cotações.
Outra actual medida política americana é a abertura do Iraque
para diferentes "players".
Tal facto deverá aumentar a produção de petróleo
e ajudar a derrubar as cotações, uma vez que o país
apresenta o melhor R/P (reservas/produção) do planeta.
Em termos de causas imediatas, merece ser citada a crise no Delta do Níger,
onde uma plataforma da Shell foi atacada no mês de junho por um grupo
separatista.
O declínio de reservas é outro fator que tem desregulado os
marcadores económicos.
Recentes e inesperadas quedas nos estoques estratégicos dos EUA causaram
um aumento de preço significativo nos últimos meses, e outros
problemas de escassez – como o declínio das reservas do Mar do Norte
– vem ao longo dos anos colaborando para elevar as cotações.
Problemas de ordem natural, como estações frias em excesso
ou até mesmo desastres pontuais
como furacões, também acarretam em uma larga e imprevisível
redução da produção e aumento do consumo.
É importante reforçar que boa parte da pressão exercida
sobre o preço do petróleo - tanto pela explosão do consumo
quanto através do declínio das reservas - deve-se exclusivamente
a previsões elaboradas com alta margem de erro. Por estimativa própria,
creio que somente estas consistam em quase 10% do aumento na cotação
do barril.
Uma cautela talvez excessiva, pois não se está levando em consideração
preciosas descobertas na América da Sul e na África.
Finalmente, os subsídios aos derivados constituem o factor mais maleável,
pois podem ser reduzidos ou até mesmo encerrados em caso de interesse
dos governos.
Qualquer uma das duas medidas medidas poderia jogar o preço dos derivados
para cima - o que desistimularia o consumo - mas por outro lado traria consigo
um grande risco de contaminação da economia e potencialização
da inflação mundial.
Por ora, EUA e China ainda continuam a subsidiar - apesar de reajustes no
preço da gasolina de 20% e 17%, respectivamente.
Adotando uma postura mais prudente, países europeus (não produtores)
vêm ampliando os seus reajustes (a Itália, por exemplo, já
reajustou em 31%).
Embora as projeções futuras não sejam optimistas (prevê-se
um barril a 170 dólares em setembro), é importante ressaltar
que toda previsão pode e deve ser usada como maneira de interferir
e transformar a realidade.
Cabe aos governos, economistas e integrantes da Indústria debater,
rebater e agir sobre os dados.
A reflexão é fundamental e as possibilidades estão em
aberto.
Artigo de: Mauro Kahn , especialista em geo-política do petróleo
e geo-política ambiental, assim como fundador do Clube do Petróleo
www.clubedopetroleo.com.br
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